
Cinema sukiyaki
03/07/2009“O apressado come cru”, já diz o ditado. Em se tratando de cinema, esta máxima culinário-filosófica também vale, e tenho tido ótimas experiências recentemente com filmes que antigamente eu dispensaria categoricamente com um “tá precisando de umas tesouradas”.
A última delas foi com o filme “A Aura” (El Aura, 2005), do diretor argentino Fabián Bielinsky, um neo-noir, como os críticos o definiram bem, ou um “suspense + heist movie” segundo eu mesmo.
O filme conta a história de um taxidermista (Ricardo Darín) obcecado em cometer o crime perfeito, e que encontra esta oportunidade em uma caçada numa remota cidade patagônica. Atuações brilhantes, cuidado milimétrico na produção e câmera… uma obra de arte para se degustar com a calma do deslocamento tectônico que faz os Andes crescerem.

Clássico momento de filmes noir em "El Aura"
O filme corre por 2 horas e uns quebrados. Este fato, somado ao tom gélido das cores do filme força uma digestão lenta do mesmo, ou um sono profundo para quem não está no clima para uma obra de arte desafiadora.
Sou um viciado em referências, e este filme, junto de outros recentes achados como “A Partida” e “Alexandra“, são pratos cheios para pessoas como eu. Ou, como penso em descrever agora: uma travessa de sukiyaki.
Pra quem não conhece, sukiyaki é um prato japonês que é preparado na mesa. Uma travessa com todos os ingredientes picados e crus é colocada em uma travessa ao lado de uma chapa aquecida. Os convidados vão colocando o que querem comer na chapa, misturam o tempero e esperam. Quando acham que sua carne e legumes estão em um ponto desejável, tiram, passam em um ovo cru batido e comem.
Assim também funciona no cinema, com o diretor colocando a travessa de ingredientes na sua frente, você escolhendo o que colocar na chapa que é o seu pensamento, adicionando o tempero das suas experiências e esperando o conhecimento ou sentimento ficar pronto para ser saboreado.
Alguns demoram menos, as folhas verdes, como uma cena esteticamente bonita ou um toque de humor; outros demoram mais, a carne, como uma referência obscura que você tem que correr atrás depois do filme. Assim o prato fica extremamente saboroso e divertido de preparar, seja numa mesa imaginária entre você e os realizadores do filme, ou até no cafézinho depois da sessão com seus amigos, talvez marcando um sukiyaki para um dia desses, pra falar de cinema e tomar um saquêzinho quente… que tal?

Douzo meshiagare! (Bom proveito!)
