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O egoísmo bom e o egoísmo ruim

05/07/2009

Há uns dois anos meu interesse pela Festa Literária de Paraty vem tendo altos e baixos. Nunca fui, mas vejo com crescente desconfiança o espetáculo que vem se formando em torno deste que poderia ser muito mais um encontro de idéias do que uma vitrine de best sellers. Talvez seja só a manifestação da minha frustração por não poder ir.

No entanto esta frustração está me dando a oportunidade de ver o outro lado de uma questão na qual eu já estava firmemente posicionado. Um dos convidados destaque desta edição da feira é o biólogo Richard Dawkins. Ele apareceu na cultura popular há mais de 30 anos, com seu fantástico livro “O Gene Egoísta” (The Selfish Gene, 1976), onde ele popularizou sua noção de que a Teoria da Evolução se aplica desde nível do gene.

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Nos trinta anos seguintes, Dawkins usou esta base teórica que ele julgou fortíssima (afinal, ele é um best seller) para expandir outras idéias, dentre elas a negação da fé e do creacionismo. De cientista ele se tornou um embaixador do ateísmo. Particularmente eu gosto mais dele quando ele ainda era descrito pela sua formação acadêmica e não como o “papa” do ateísmo.

De cientista a escritor, de escritor para celebridade. De Oxford para Paraty. Podemos julgar por estas associações absolutas a contribuição de Dawkins para a cultura mundial? Acredito que não, mas é fazendo estas associações absolutas que o ex-cientista anda ganhando a vida ultimamente, dizendo que a religião é a fonte de todo Mal e que só o ateísmo é a luz.

A mensagem “Deus provavelmente não existe, então relaxe e vá aproveitar a vida”, que Dawkins ajudou a promover no ano passado é genial, se a ênfase colocada fosse no “provavelmente” e no “vá aproveitar a vida”. Dawkins como cientista esqueceu que teorias podem ser refutadas (o “provavelmente” ali), e em seu categórico julgamento de que “religião = intolerância e violência” ele esquece que para muitos esta é a melhor forma de “aproveitar a vida”.

"E eu com certeza não vou embora daqui de ônibus"

"E eu com certeza não vou embora daqui de ônibus"

As religiões organizadas oferecem conforto a muitas pessoas que não tem muito mais que esperar nesta vida, então elas se regozijam na idéia de que existe algo melhor além daqui, e que elas podem atingir isso sendo boas aqui mesmo. E nesta pré-condição de ser bom neste Mundo para ganhar ingresso para o próximo elas estão não só aproveitando a vida, mas melhorando a vida de outros que os cercam.

Esta visão romântica da religião é algo que parece faltar nos discursos recentes do dr. Dawkins. Fica fácil simplificar de um lado ou de outro. Talvez seja a imprensa e a editora do professor que extremam suas teorias, para aumentar as vendas. Isso eu não poderia dizer a não ser batendo um papo com ele, o que parece impossivel, pois os ingressos para a “Tenda dos Autores” estão esgotados há tempos, e os para a “Tenda do Telão” também estavam indo rápido.

"Olha a água mineral! Faulkner é dois real! Olha o Dostoiévski aí!"

"Olha a água mineral! Faulkner é dois real! Olha o Dostoiévski aí!"

Mesmo sem acesso ao autor, quero tentar ligar sua teoria do gene egoísta com a conclusão mais interessante de sua última campanha sensacionalista: “enjoy life“. Aproveite a vida. Este é o egoísmo em um nível muito superior ao do gene, chegando ao nível da consciência. Esta mensagem, sem extremismos, com cada um aproveitando a vida do melhor jeito que lhe convém, talvez seja uma saída para este Mundo tão complicado onde absolutos têm cada vez menos vez.

escrito por Douglas

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