De recomeçar II

No post que o Doug escreveu (se não leu, leia!) ele falou sobre recomeçar a treinar Kendo, o que por uma coincidência bonita, eu também estou fazendo aqui em Curitiba, mas acredito que há uma metáfora sobre esta questão, sobre o Recomeçar… já parou pra pensar quantas coisas você já recomeçou só hoje e quantas outras você quer recomeçar?!

Veja só, escrever no blog, já é um grande recomeço para mim, faz alguns anos que não escrevo uma linha só e tirar essa ferrugem está me fazendo um bem danado – assim como tirar a ferrugem do corpo e voltar a treinar Kendo – escrever me fez recomeçar (olha o verbo aí de novo! E você vai lê-lo várias vezes ainda – não isso não é um spoiler!) a pensar, a refletir e ver o quanto a vida nos permite que voltemos a um ponto que deixamos para trás. Sejam os motivos que forem, mas é assim, a decisão é nossa de retomar as rédeas da vida e voltar a fazer algo que gostamos ou desejamos.

Click que o Doug falou, já me aconteceu inúmeras vezes, essa ligação em algo nostálgico, em algo que nos fazia feliz é sadio, desde que não desejemos viver no passado, temos que conseguir entender que a vida mudou, que evoluiu, aceitar que o diferente é bom e que talvez aquilo que começamos no passado, não tínhamos condição física, mental ou financeira de manter, mas que no hoje é totalmente possível, com a velha máxima do clichê de que ‘tudo acontece na hora certa’, é eu sei, parece livro de auto-ajuda, mas não é totalmente mentira, voltando ao Kendo, quando treinei entre 1998 e 2000, não tinha grana, não tinha carro e tudo era mais dificil, hoje, tenho grana, tenho carro, mas me falta tempo, enfim, problemas de primeiro mundo.

A intenção não é fazer um texto muito longo, apenas recomeçar a escrever, recomeçar a pensar, recomeçar a entender e ajudar você que está lendo a recomeçar a nos ler! Sejam bem vindos ao Cansei de ser Cowboy 2016, o que você vai recomeçar hoje?!

 

 

 

Anúncios

De recomeçar

(não vou fazer mais uma introdução sobre recomeçar o blog, este é um post para registrar meu reencontro com o kendô)

Cheguei um pouco mais tarde do que no primeiro treino. Naquele eu somente observei a dinâmica da classe, mal disse um oi.

Desta vez, mesmo com o clube ainda fechado, saí do carro para encontrar o pessoal que já estava na frente. Me apresentei, os outros não disseram os seus nomes. Primeira barreira a ser conquistada.

Entrei na quadra com os primeiros, e me voluntariei para varrer e passar pano. Não me apresentei aos novos colegas ao fazê-lo. Pensei em colocar uma barreira eu mesmo. Bobo, eu sei, mas acho que funcionou.

Hoje houve aquecimento e alongamento. O treino anterior foi um pouco diferente, com o sensei colocando os alunos graduados em disputas como se fosse um exame.
Participei do alongamento com todos, no início completamente perdido, aos poucos re-aprendendo a contar, a observar, repetir, fazer na ordem certa.

Somente dois não graduados estavam no treinamento deste domingo, dia aberto para iniciantes. Logo uma senhora (também não se apresentou por nome) veio com dois shinai para começar as lições básicas.

Primeiro, como segurar a espada. Não como uma enxada, mas como um baterista, um caligrafista. Gentil, firme.

Depois, os pés. Movimento para frente, para trás. Não na ponta dos pés como um boxeador, mas quase. Como um coelho na floresta, pronto para correr para o leão não o pegar.

Controlar a força. A senhora que veio nos ensinar tinha pouco mais de um metro e meio, e disse que para ela o desafio no kendô é produzir potência mesmo sem o físico para isso. Nós, eu e o outro não-graduado, grandes e (modéstia à parte no meu caso) fortes, temos que produzir potência de outra forma, diminuindo a força.

Junto da explicação sobre a força, foi a hora de diferenciar a espada japonesa das outras espadas, especialmente as ocidentais. Espadas como a Excalibur, por exemplo, foram feitas para esmagar o inimigo, não cortá-lo. Eram pesadas, precisavam de força, o que os ocidentais, tinham de sobra.
No Oriente, “do Aladim pra lá” segundo nossa instrutora, o físico não ajuda, então as espadas se tornaram mais leves, e o objetivo é o corte, para incapacitar ou matar o oponente.

Por exemplo, “a cabeça é um balão”, um mero corte acima da testa basta para abri-la e o inimigo já não mais poder reagir. Mesma coisa no braço, perto do bíceps. Estas lições aparentemente mortais terão tudo a ver com os os golpes na prática de Kendô.

Juntando o movimento dos pés, com os braços prolongados pela espada, começamos as repetições. Muitas repetições. A nossa mestra chegou a fazer uma piada sobre os métodos de ensino ocidental e oriental, dizendo que o primeiro evoluiu para diversos métodos, mais científicos, ou lúdicos, variados. No Oriente, especialmente no Japão, eles só tem um método: repetição.

Mas não é uma repetição monótona. Tem todo um objetivo ao redor. Cada repetição, ou quantidade de repetições, é um desafio para si mesmo. Se você consegue fazer 10 repetições de um movimento perfeito, ótimo. Agora faça 11. Depois 12, 13, 20, 30, 100, 101… “mil”.

O “mil” para o japonês é um alvo móvel. É uma eterna busca, um desafio por fazer mais e mais, de forma perfeita. E é um objetivo íntimo, somente seu. Existe sim a comparação com outros, a competição, mas a observação do seu movimento, da sua conquista da perfeição, ou do erro para correção, é somente seu.

Observar seu movimento, seu entorno, é o que se conquista durante a repetição e prática do kendô. Observar os bons e os “mais” (jeito engraçado de falar “maus”), mas especialmente os bons, seus acertos, seu movimento completo e perfeito.

Isto não quer dizer ser uma Pollyana e ver somente o bom. É simplesmente observar. Ter consciência constante do que acontece e como você pode fazer para melhorar. Isto me afetou profundamente, e fez um “click” com o que venho lendo e estudando sobre o Estoicismo. Cheguei a comentar que foi kármico, como se a minha busca por uma prática que colocasse em prático alguns destes pensamentos tivesse sido encontrada.

Com estas diversas explicações, fomos deixados os dois com uma lição de repetição dos fundamentos de movimento e ataque. De tempos em tempos alguns graduados apareciam e davam dicas, apoiavam nosso aprendizado. Não mudamos de exercício por uma hora inteira. Repetição.

Observei meu companheiro de treino (que começou um mês antes que eu), como seu movimento era sempre o mesmo. Chegando no meio da quadra estava no dyu (10), toda vez. Ele observou que eu mantinha firme o final do golpe, e entendemos o porquê de cada um.

Com um ilustre sensei visitando (treinador da seleção brasileira de kendô), houveram muitas paradas para discutir a técnica entre os graduados. Parávamos para não perturbar o silêncio e para que pudessem ouvir. Nós, de longe, observamos.

Foi um treino bom.

P.S.: eu treinei kendô no início dos anos 2000, algumas sessões em Curitiba, outras na Austrália. Nunca continuei até a obtenção de nível ou estudei profundamente. Acredito que isto esteja para mudar. Desta vez ouvi um “click”.

Bagagem

Tentei mudar para ter só um tumblr para colecionar minhas “coisas”, mas não deu. Sou “medium form”, e blog é o meu lugar para publicar na Internet. Às vezes até arrisco em “long form” e, qual é o problema de colocar só 2 ou 3 linhas em um post afinal?

Então estou voltando a algum tipo de atividade neste blog, sem promesas, mas sempre coerente com o que acontece comigo e com os meus.

Por falar em o que acontece, vocês viram que o domínio .com.br está definhando, posto para morrer. Migrei (a duras penas, tanto tecnológicas quanto psicológicas) de volta para o gratuito wordpress.com, mantendo alguma semelhança com o último tema usado no domínio próprio, e com o cabeçalho muito bacana que o Alexandre produziu com exclusividade.

Por falar em bagagem, em trazer nossas “pré-concepções” conosco em toda nova (ou velha) empreitada, segue um koan que encontrei ligando uma coisa a outra:

In the days when Sussman was a novice, Minsky once came to him as he sat hacking at the PDP-6.
“What are you doing?” asked Minsky.
“I am training a randomly wired neural net to play Tic-tac-toe,” Sussman replied.
“Why is the net wired randomly?”, asked Minsky.
“I do not want it to have any preconceptions of how to play,” Sussman said.
Minsky then shut his eyes.
“Why do you close your eyes?” Sussman asked his teacher.
“So that the room will be empty.”
At that moment, Sussman was enlightened.

Vou deixar a tradução do koan inteiro para vocês, mas o que o professor realmente quis dizer, em suas próprias palavras e não no divertido “enigma”, foi: “If you wire it randomly, it will still have preconceptions of how to play. But you just won’t know what those preconceptions are.” (se você conectar de forma aleatória, você ainda terá pré-concepções de como jogar. Mas você simplesmente não saberá quais serão estas pré-concepções.)

Então, mesmo que incomode às vezes, é bom saber de onde você está partindo, mesmo que seja do lugar errado.

Zen-Circle-ZEN-BUDDHIST

Índios elétricos

Vocês tiveram uma overdose de vergonha alheia no “show” da “Legião” com Wagner Moura? Foda, né?

Mas então, o vídeo a seguir é da banda curitibana ruído/mm, a qual eu já mencionei no blog algumas vezes (1, 2, 3) — o blog é praticamente o fã-clube da banda.

Eles fizeram um “cover” de “Índios”  do Legião Urbana, e este sim eu assino, e “embedo” abaixo:

P.S.: a semente do ruído/mm foi um projeto chamado “Índios eletrônicos”, fato que faz este cover ter um significado todo especial. Ok, não especial, mas interessante.

Sinais

Como dizem que a quinta temporada de “Mad Men” é tudo aquilo e muito mais, recomecei minha maratona para alcançar o seriado. Até hoje só assisti a primeira temporada.

Comecei a segunda temporada estes tempos, e hoje conversando com o Everton, lembrei do fragmento de poema que o protagonista, Don Draper, declama no final do primeiro episódio desta temporada:

“Now I am quietly waiting for
the castastrophe of my personality
to seem beautiful again,
and interesting, and modern.

The country is grey and
brown and white in trees,
snows and skies of laughter
always diminishing, less funny
not just darker, not just grey.

It may be the coldest day of
the year, what does he think of
that? I mean, what do I? And if I do,
perhaps I am myself again.”

Ele vem do poema “Mayakovsky”, do livro “Meditations in an Emergency“, de Frank O’Hara, publicado em 1957. O fragmento atinge nós adultos (olhe só eu, me considerando adulto) em um nível molecular, perdendo, duvidando e reencontrando nós mesmos a medida que a idade avança e o mundo muda ao nosso redor.

O personagem deste poema se suicida no final. Será um sinal do que está por vir para Don? Como o seriado está na quinta temporada, talvez ainda não. Só talvez. E tomara que não, porque que personagem intrigante ele é! Vejam: